Médico condenado a 40 anos por mutirão de cataratas que cegou 21
Crédito: O GLOBO
Visão

Médico recebe pena de 40 anos por mutirão de cataratas que cegou 21

Oftalmologista recebe pena de 40 anos após mutirão de catarata resultar em infecção que cegou 21 pacientes em São Bernardo do Campo. A falta de esterilização permitiu a contaminação por Pseudomonas aeruginosa. Defesa anuncia recurso.

Um oftalmologista do ABC paulista foi condenado a 40 anos de prisão em regime fechado por lesões corporais gravíssimas que cegaram 21 pacientes. A sentença, proferida no final de junho, é a consequência de um mutirão de cirurgias de catarata realizado em 2016, em São Bernardo do Campo (SP), sem a correta esterilização dos instrumentos. A contaminação por Pseudomonas aeruginosa causou infecções oculares severas, resultando em perda parcial ou total da visão.

Como a bactéria atingiu todos os operados no mutirão

O mutirão ocorreu em um hospital da região cujo nome não foi divulgado. De acordo com a perícia, a falta de higienização adequada foi a causa central do surto infeccioso. A bactéria Pseudomonas aeruginosa, conhecida por sua presença em ambientes hospitalares, foi detectada nos olhos dos 21 pacientes submetidos à cirurgia. Sem o tratamento correto, esse microrganismo pode causar danos irreversíveis à córnea e levar à cegueira.

A investigação apontou que os materiais cirúrgicos não passaram pelo processo de esterilização exigido, permitindo a contaminação cruzada. Os laudos periciais foram taxativos: “os danos poderiam ter sido evitados com esterilização apropriada”.

O que alegou o médico em sua defesa

O profissional afirmou que deixou todo o material para esterilizar no hospital um dia antes e que ajudou na montagem do centro cirúrgico. Ele garantiu que os instrumentos estavam lacrados e foram abertos somente durante os procedimentos. Além disso, declarou que realizava assepsia com iodo após cada cirurgia como medida de prevenção. Contudo, a perícia concluiu que essas ações foram insuficientes para evitar a infecção generalizada.

Relatos de quem perdeu a visão no mutirão

Paciente M.F.: perdeu um olho e usa prótese

“O avental que vesti já estava usado.” — M.F.

M.F. ficou internada por 15 dias após a cirurgia. Precisou retirar um olho e hoje utiliza uma prótese que, segundo ela, “inflama e coça, gerando um sofrimento muito grande”. Ela ainda relatou que o avental usado durante o procedimento aparentava já ter sido utilizado, levantando sérias dúvidas sobre a higiene no local.

Paciente E.B.: perdeu a visão e encontrou outros na mesma situação

“Já tinham outras quatro pessoas com reclamação.” — E.B.

E.B. realizou a cirurgia de catarata e acabou perdendo a visão. No dia seguinte, ao retornar ao hospital, percebeu que outros pacientes passavam pelo mesmo problema. De acordo com seu depoimento, o médico demonstrou surpresa e disse não saber o que havia ocorrido.

Paciente M.S.: múltiplas cirurgias e visão reduzida a vultos

“Somente vejo vulto.” — M.S.

M.S. passou mal durante o tratamento inicial e teve de se submeter a mais três operações oculares. Atualmente, enxerga apenas vultos com um dos olhos e relatou ter sentido muita dor na primeira cirurgia. A sequela é permanente e afeta significativamente sua qualidade de vida.

Condenação histórica e possibilidade de recurso

A defesa do oftalmologista classificou a sentença como um “grande equívoco” e anunciou que recorrerá. Os advogados sustentam que o profissional seguiu todos os protocolos de biossegurança e que fatores externos podem ter contribuído para as infecções. Ainda não há data para o julgamento do recurso, mas a equipe jurídica busca reverter integralmente a pena. Enquanto isso, o médico permanece preso em regime fechado.

Considerada uma resposta judicial contundente, a condenação de 40 anos reacende o alerta sobre a fiscalização de procedimentos oftalmológicos coletivos. O episódio ressalta a necessidade de protocolos rigorosos de esterilização para evitar tragédias semelhantes. Caso o recurso seja aceito, a decisão poderá ser modificada em instâncias superiores, mas, por ora, as vítimas seguem lidando com as sequelas físicas e emocionais do mutirão malsucedido.

Perguntas frequentes sobre o caso do mutirão de catarata

Qual foi a pena imposta ao oftalmologista?

O médico foi condenado a 40 anos de prisão em regime fechado, conforme sentença do final de junho, por provocar perda parcial ou permanente da visão em 21 pacientes durante um mutirão de cirurgias de catarata em São Bernardo do Campo (SP), em 2016.

O que causou as infecções e a perda de visão?

A contaminação ocorreu pela bactéria Pseudomonas aeruginosa, devido à falta de esterilização correta dos materiais cirúrgicos. A infecção atingiu todos os pacientes operados no mutirão, resultando em lesões oculares graves e, em muitos casos, cegueira.

Houve relatos de irregularidades na higiene durante as cirurgias?

Sim. A paciente M.F. afirmou que o avental utilizado já estava usado, o que reforça as suspeitas de falhas na biossegurança. Outros pacientes também relataram dor intensa e perda de visão poucos dias após o procedimento.

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