Mesmo quando o HIV parece “zerado” – com carga viral indetectável no sangue –, ele continua a representar um risco elevado de demência. A Organização Mundial da Saúde (OMS) atualizou, em 15 de julho, suas diretrizes para redução do risco de demências, reforçando que pessoas com HIV devem manter o tratamento com disciplina para controlar a infecção.
O alerta ressalta um fenômeno conhecido desde o início da epidemia: o vírus tem predileção pelo cérebro e pode causar comprometimentos neurológicos mesmo na ausência de replicação detectável. Estudos científicos já demonstraram que o declínio cognitivo aparece em pacientes com carga viral indetectável no sangue, mas com resquícios do HIV no líquor, o líquido que banha o sistema nervoso.
O neurologista que mudou sua tese
No início dos anos 1980, um neurologista investigava o processamento da linguagem no cérebro quando surgiram os primeiros pacientes com HIV. Instigado pela demência que a infecção causava, ele alterou o tema de sua tese de doutorado para se dedicar a compreender esses efeitos. Esse movimento intuitivo lançou as bases para décadas de pesquisa sobre a ação do vírus no sistema nervoso central.
Hoje, sabemos muito mais sobre como o HIV se infiltra e persiste no cérebro, mas o desafio clínico permanece.
Como o HIV invade o sistema nervoso
O HIV é um retrovírus composto por duas fitas de RNA em uma cápsula protetora, com enzimas que traduzem o RNA em DNA e o fundem ao DNA humano. No sistema nervoso central, o vírus é encontrado em astrócitos – células que nutrem os neurônios e fazem a “faxina” cerebral – mesmo que essas células não tenham o receptor que o HIV costuma usar como porta de entrada.
O médico Augusto Penalva, supervisor da neurologia do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, hospital referência em HIV-Aids em São Paulo, explica: “Mal invade o organismo, ele sempre vai parar no sistema nervoso central e, uma vez nele, cria uma população residente”.
Essa permanência silenciosa é o que desperta preocupação, pois está associada à desordem neurocognitiva relacionada ao HIV, conhecida pela sigla HAND (do inglês HIV-Associated Neurocognitive Disorder). A HAND pode se manifestar com uma leve dificuldade para prestar atenção e lembrar de coisas simples ou evoluir para uma demência severa.
Entender por que o HIV tem essa afinidade pelo cérebro exige olhar para uma história evolutiva mais antiga.
Retrovírus: herança milenar no DNA humano
De acordo com Augusto Penalva, de 8% a 10% do genoma humano é constituído por retrovírus, que os virologistas chamam de retrovírus endógenos. Esses elementos genéticos modulam o diálogo dos genes com o meio ambiente, ligando ou desligando genes conforme situações cotidianas. Um exemplo marcante ocorre na fecundação: quando o óvulo é fecundado e o embrião vai se fixar na parede do útero, uma sequência de genes de um retrovírus sinaliza essa fusão.
Essa íntima relação com o genoma pode ajudar a compreender por que o HIV busca se alojar em sistemas vitais de controle do organismo.
A hipótese de uma domesticação viral ganha força quando se observa um grupo especial de pacientes.
Controladores de elite e a domesticação viral
Alguns indivíduos com HIV, chamados de controladores de elite, mantêm a carga viral indetectável sem usar medicamentos. Há a hipótese de que, nesses casos, o HIV esteja “domesticado”. Para se deixar domesticar, o vírus precisa garantir sua presença em sistemas que controlam o organismo, como o sistema imunológico e o sistema nervoso. Por isso, segundo o doutor Penalva, o HIV tem afinidade com as células cerebrais.
Essa adaptação sugere uma coexistência que, no entanto, não é isenta de riscos: mesmo controlado, o vírus ainda pode desencadear danos neurológicos a longo prazo.
Diante desse cenário, as orientações médicas se tornam ainda mais relevantes.
As novas diretrizes da OMS e os cuidados
A atualização das diretrizes da OMS, em 15 de julho, enfatiza que pessoas com HIV devem seguir rigorosamente o tratamento antirretroviral. Embora a terapia não elimine completamente o risco de complicações neurológicas, ela é fundamental para reduzir a carga viral e, assim, minimizar o impacto sobre o cérebro.
Especialistas recomendam que qualquer sinal de declínio cognitivo, como lapsos de memória ou dificuldade de concentração, seja investigado precocemente. Manter-se engajado em hábitos saudáveis, como atividade física, alimentação balanceada e estímulos mentais, também pode contribuir para a saúde cerebral, mas sem substituir o acompanhamento médico. Consulte sempre um profissional de saúde para avaliar a melhor abordagem.
Perguntas Frequentes
Por que o HIV aumenta o risco de demência mesmo quando a carga viral está indetectável no sangue?
Mesmo com carga viral indetectável no sangue, o HIV pode persistir no líquor e em células cerebrais como astrócitos, formando uma população residente no sistema nervoso central, o que está associado ao declínio cognitivo.
O que é a desordem neurocognitiva associada ao HIV (HAND)?
A HAND é uma condição que varia de dificuldades leves de atenção e memória até demência severa, causada pelos efeitos do HIV no sistema nervoso central.
Como o HIV afeta o sistema nervoso central?
O HIV invade o sistema nervoso central logo no início da infecção, instalando-se em células como astrócitos e criando uma população residente, o que pode levar a danos cognitivos mesmo na ausência de carga viral detectável no sangue.







