Uma pesquisa recém-publicada na revista científica Intelligence trouxe à tona uma discussão frequente nas redes sociais: a de que os jovens estariam ficando “mais burros”. O estudo, que analisou dados de 394.378 adultos nos Estados Unidos, sugere que algumas habilidades cognitivas mostraram declínio gradual ao longo dos anos, em especial entre pessoas de 18 a 22 anos e com menor escolaridade.
No entanto, os próprios autores alertam que os resultados não significam uma redução geral da inteligência humana. A ideia de que a capacidade intelectual está em queda é frequentemente compartilhada em plataformas como Twitter e Instagram, muitas vezes atribuída ao chamado Efeito Flynn Reverso. Mas o fenômeno é mais complexo do que parece.
O que é o Efeito Flynn Reverso?
A expressão ganhou força após constatações de que o consistente aumento nos escores de testes de inteligência, documentado ao longo do século 20 e conhecido como Efeito Flynn, começou a perder fôlego em diversos locais. Parte das pesquisas passou a observar uma desaceleração ou uma inversão dessa tendência, fenômeno chamado de Efeito Flynn Reverso.
No entanto, é fundamental esclarecer que o termo não indica que a inteligência humana esteja diminuindo. Os pesquisadores observam que apenas algumas habilidades avaliadas por esses exames passaram a apresentar escores mais baixos em determinados grupos populacionais. Ou seja, o declínio não é generalizado e varia conforme a capacidade cognitiva analisada.
Como a pesquisa foi realizada?
O estudo analisou informações de 394.378 adultos com idades entre 18 e 65 anos, coletadas entre 2006 e 2018 por meio do SAPA Project, um amplo banco de pesquisas on-line. Os participantes foram submetidos a testes do International Cognitive Ability Resource (ICAR), que avaliaram quatro domínios cognitivos:
- Raciocínio por padrões: identifica regularidades em figuras abstratas.
- Sequências de letras e números: exige dedução lógica.
- Raciocínio verbal: avalia a compreensão de palavras.
- Rotação mental 3D: testa a habilidade de manipular objetos no espaço.
As análises consideraram variáveis como idade, sexo e nível de escolaridade.
Resultados: queda no raciocínio e melhora em rotação 3D
Os dados indicaram declínio gradual nas pontuações de algumas habilidades cognitivas. As reduções mais consistentes apareceram nos testes de raciocínio por padrões e nas tarefas de sequência de letras e números. O raciocínio verbal também mostrou diminuição, mas em menor intensidade.
Em contraste, a capacidade de visualizar e rotacionar objetos em três dimensões apresentou melhora durante parte do período analisado. Tais achados reforçam que as mudanças cognitivas não são uniformes: enquanto algumas competências enfraquecem, outras podem se fortalecer.
Grupos mais impactados
O padrão de queda foi observado em diferentes grupos, mas mostrou-se mais acentuado entre adultos de 18 a 22 anos e entre participantes com menor nível de escolaridade. Esse dado chama a atenção para possíveis influências do ambiente educacional e socioeconômico no desempenho cognitivo.
Interpretação dos autores: a inteligência é multidimensional
Apesar dos achados, os próprios autores afirmam que o estudo não demonstra uma redução geral da inteligência humana. Eles reforçam que a pesquisa avaliou o desempenho em testes específicos e que a inteligência é um construto muito mais amplo, envolvendo diversas capacidades, como memória, criatividade, linguagem e aprendizagem.
Os autores ressaltam que testes de QI, embora úteis, não captam toda a amplitude da inteligência. Portanto, os resultados devem ser interpretados com cautela.
Limitações do estudo e próximos passos
Outro ponto crucial é que o estudo foi realizado apenas com adultos dos Estados Unidos, e os resultados não podem ser automaticamente aplicados a outros países ou à população mundial. Ainda não existe uma resposta definitiva para o Efeito Flynn Reverso.
Os pesquisadores citam hipóteses como mudanças na educação, no estilo de vida, no uso das tecnologias digitais e nas condições sociais, mas ressaltam que nenhuma delas foi comprovada como causa. Enquanto a ciência busca respostas, é prudente evitar conclusões precipitadas e reconhecer a complexidade da inteligência humana.
Por isso, os especialistas pedem cautela ao interpretar os dados, evitando alarmismos que não correspondem ao estado atual da ciência. O debate nas redes sociais, por vezes, simplifica o fenômeno ao atribuí-lo exclusivamente ao Efeito Flynn Reverso, desconsiderando a necessidade de uma análise mais aprofundada. A complexidade do tema exige mais estudos e uma comunicação responsável. Enquanto isso, a recomendação é analisar os dados com ceticismo e abertura.
Perguntas Frequentes
O que é o Efeito Flynn Reverso e ele indica que as pessoas estão ficando mais burras?
O Efeito Flynn Reverso é a observação de que algumas habilidades avaliadas por testes cognitivos passaram a ter pontuações menores em determinadas populações. A pesquisa com 394.378 adultos dos EUA (2006-2018) concluiu que isso não significa redução geral da inteligência humana, pois a inteligência envolve diversas capacidades como memória e criatividade.
Quais habilidades cognitivas apresentaram queda no estudo com americanos?
Houve queda gradual nos testes de raciocínio por padrões e sequência de letras e números, e redução menor no raciocínio verbal. Em contraste, a rotação mental 3D melhorou em parte do período. Os dados são de 394.378 adultos de 18 a 65 anos.
Os jovens são os mais afetados pela tendência de queda nos testes?
Sim, o declínio foi mais acentuado entre adultos de 18 a 22 anos e naqueles com menor escolaridade. Porém, os resultados se referem apenas aos EUA e não podem ser automaticamente aplicados a outros países.
Fonte
- www.metropoles.com
- revista científica Intelligence (www.sciencedirect.com)








